O IMITADOR
 
 

SINOPSE

Portugal, 1949. Vive-se um período de paz podre, consequência de um isolamento do país perante o desenvolvimento
e progresso alheios. Época de grande contraste social e de repressão devidos aos valores ditatoriais instituídos.
Verão. Nuno tem vinte anos e passa as férias no Ribatejo, tal como vem fazendo desde que aos treze anos Duarte Vianna,
seu companheiro de escola, o convidou a passar o Verão na casa de família dos Vianna, a Quinta da Trovisca.
São três estes Vianna e orfãos de pai: Duarte, mau estudante de Direito e colega de Nuno, António, irmão mais velho de
Duarte, que dirige a casa e os negócios da família, e Lúcia, a mais nova, por quem Nuno se apaixona desde logo e para sempre.
Noite de calor. Nuno sai para a rua deixando Duarte no baile, a dançar com as camponesas. Ouve risadas vinda do outro lado
da rua, de uma taberna.
Junto da única mesa da taberna está um homem novo, com um chocalho ao pescoço, que imita os movimentos e gestos de
um bode. Os homens agrupados à sua volta riem da actuação enquanto bebem. O grupo parte-se para deixar entrar Nuno
e especialmente Duarte, um Vianna. O homem-bode continua a sua actuação tornando Duarte alvo dos seus chifres
imaginários. Duarte entra na brincadeira, mas uma marrada que o homem-bode lhe dirige gera o pandemónio na taberna, com
os camponeses a quererem defender o senhorito com pontapés dirigidos ao “animal”. Duarte defende-o, enfeitiçado e
intrigado pelo homem-bode e Nuno sugere que o levem para a Trovisca.
Cidre, corrupção popular de cidra, é o nome do homem-bode.
Dia de pagamento. Duarte, Nuno e Lúcia levam Cidre à presença do mais velho dos Vianna, que efectua o pagamento das
jornas da semana, num vagarosíssimo ritual. Duarte enfia um chocalho no pescoço de Cidre, para que este imite o bode
na presença do irmão, mas Cidre, matreiro e tendo aqui a oportunidade de mostrar outros dotes artísticos para além daqueles
que tinha executado antes, pede a António Vianna, ou antes, Sua Excelência, que admire um outro número intitulado
“A Durteia”. António observa atento a imitação em que Cidre, com uma saca enfiada na cabeça, é freira e sacristão malicioso,
num retrato profundo do subconsciente colectivo português, e em seguida ordena que se pague a jorna também a Cidre.
À pergunta de qual o trabalho que desempenha, este responde: IMITADOR!
Cidre detecta em António, mais do que o patrão, o apreciador que chega a mestre. Os dois aperfeiçoam as “partes”, como
Cidre designa as suas imitações, numa relação que transcende a de mestre-discípulo e que ganha a pouco e pouco
contornos sado-masoquistas. Cidre pertence a António como se fosse simultaneamente seu discípulo, escravo, coisa,
amigo, esposa e perdigueiro.

Lisboa, 1951. Com a morte do pai e os problemas económicos daí advindos, Nuno descobre-se a trabalhar numa
repartição pública, longe da faculdade, de Duarte, de Lúcia e da vida despreocupada que até aí levara com os Vianna, como
se fosse também ele um Vianna. Pela primeira vez, Nuno tem consciência da sua verdadeira condição social e de como esta
se distancia dos Verões na Quinta da Trovisca.
Longe da juventude, riqueza e despreocupação de há uns meses, Nuno sobe a Rua do Arsenal apressado para o
trabalho quando um carro pára junto a ele e Duarte lhe grita: “Dia quinze, lá esperamos por ti!”.
Nuno, falho de coragem de explicar a Duarte a sua nova condição de funcionário público sem direito a férias, chega à Trovisca
no dia anunciado; Quinze de Agosto, desde sempre dia de chegar à herdade dos Vianna.
Ao entrar na enorme casa, depois de rever Duarte, António e, especialmente, Lúcia, Nuno reconhece todo o “universo Vianna”
que lhe foi tão familiar, mas agora com a consciência de que é um universo do qual ele não faz parte, a não ser que… por casamento.
O amor por Lúcia acalentara nele desde sempre uma ideia de casamento, ideia tão mais vaga quanto antes se sentira um Vianna, e tão mais concreta quanto agora se sente um forasteiro.
Casar com Lúcia e garantir para todo o sempre a permanência no mundo especial dos que podem e sabem dar gorjetas,
eis o projecto de Nuno.
Seguro de que Lúcia é virgem e de que, num temperamento como o seu, o primeiro homem que a conhecesse seria por
ela encarado como o mais definitivo dos amores, Nuno reata a relação de proximidade que sempre tivera com ela,
empenhado em fazê-la progredir com vista ao desejado casamento.
Quatro de Outubro de 1951. Dia em que Lúcia completa vinte anos. Dia de caçada e de Baile.
Caminhando de caçadeira ao ombro, Nuno vê Lúcia aproximar-se de Vasquinho, um amigo de António convidado para o dia
de anos da rapariga. Ao longo de todo o dia, Nuno vê a aprendiz de senhorita a esquivar-se dele para a companhia do
outro. Preparado para derrotar apenas o pudor da rapariga, Nuno depara-se com a oposição de um rival.
Noite de baile. Nuno segue com o olhar o percurso do casal que dança e ri. Mais tarde, mais longe, descobre-os aos beijos.
Entretanto, os camponeses reúnem-se no terreiro em torno de Cidre, que se prepara para representar mais uma das suas
partes. Desta vez “O Nazareno”, o qual termina com a simulação de um naufrágio, parte em que António pedira a um dos
criados que despejasse vinte e cinco litros de água pela cabeça de Cidre abaixo.
Nuno junta-se a Duarte para assistir. Vê regressarem Lúcia e Vasquinho. Ela vem juntar-se a eles, como sempre fizera
e Vasquinho fica junto de António. A humilhação de Cidre prossegue.
António ordena então a Cidre que faça “A Durteia”. Nuno coloca a mão no ombro de Lúcia. Cidre, de saca na cabeça, sente
a picada de uma faca afiada nas mãos de um dos camponeses que o agridem. Fixando o sítio onde estão os Vianna, com
Nuno no meio, dirige-se a eles e num gesto rápido tira a saca da cabeça e coloca-a na cabeça de Nuno, começando a
beijá-lo com o maior dos frenesins. Nuno retira a saca da cabeça e agride Cidre, como tantos fizeram antes dele. Mas a isto,
Cidre reage com uma violenta cabeçada que deita Nuno por terra dizendo: “Guloso de merda, vens cá prá Quinta à procura
da sopa e ainda bates nos criados?”
Nuno retira-se.
Ao colocar-lhe a saca na cabeça, Cidre, o imitador, revelara o verdadeiro Nuno. Um Nuno que, apesar de querer ser um Vianna
e de agir como um Vianna, não é um Vianna.
Nuno é, tal como Cidre, um imitador, ou talvez seja ele O IMITADOR.

 

Ficção |


FICHA TÉCNICA

Realização | João Pinconé
Produção | Real Ficção